Os fatores socioculturais participam da/na elaboração do ato ficcional, como afirma Candido em todo o seu trabalho crítico. Entretanto, sabemos que sua concepção crítica é de que o dado ficcional não vem diretamente do mundo extratextual; mesmo rearticulando este, a ficção possui sua autonomia de existência. Esta relação existencial dialética “depende de princípios mediadores, geralmente ocultos, que estruturam a obra graças aos quais se tornam coerentes as duas séries, a real e a fictícia”.

A literatura é por natureza humanizadora e como tal não pode ser subserviente ao Poder. Ela deve sim fornecer tanto a fruição (à la Barthes) como promover a inquietude do espírito. Esta “necessidade de conhecer os sentimentos e a sociedade”, combater as opressões e se empenhar numa literatura e numa sociedade, estas atitudes políticas promovem ao conhecimento e ao prazer estético o exercício da reflexão que é o “nervo da vida”: a contradição na aventura do espírito. Esta Humanização que é própria literatura é entendida como: o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, a afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante.

A capacidade de penetrar no reino do desconhecido e desvendar o véu do Poder, revelando a face da dominação e da coerção, estas são atividades humanizadoras da Literatura. Assim, ela irrealiza o mundo na leitura para que o leitor possa realizar o seu mundo de forma consciente e astuta a fim de conhecer e mirar o outro lado do hábito, do Poder. Sendo assim, a literatura torna-se um bem imprescindível como: “certamente a alimentação, a moradia, o vestuário, a instrução, a saúde, a liberdade individual, o amparo da justiça pública, a resistência à opressão etc.; e também o direito à crença, à opinião, ao lazer e, por que não, à arte e à literatura” .

Uma sociedade justa e promotora do saber e do humano desenvolve sua humanidade, o seu respeito pelo próximo e sua reflexão diante de seu universo vivenciado, literário ou não. “A fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável” do ser humano e de sua realidade.

Por Professor Ms. Flávio Leal, em “Nos rastros do rastreador: Antonio Candido. Sobre a crítica literária brasileira”. Consultado em:

http://www.ucm.es/info/especulo/numero30/cribrasi.html

Entendendo a literatura

Antonio Cândido, um dos maiores intelectuais brasileiros e crítico literário afirmara:

Chamarei de literatura, da maneira mais ampla possível, todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações. Vista deste modo a literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povoe não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma espécie de fabulação.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

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